Adolescentes 'apátridas' lutam para sobreviver nas ruas britânicas

Uma multidão de adolescentes apátridas está vivendo nas ruas de cidades britânicas como Londres e Birmingham. O problema crescente, denunciado por ONGs locais, é exposto em um documentário da BBC transmitido nesta segunda-feira pela rede britânica.

Esses menores chegaram ao país ilegalmente com os pais ou nasceram na Grã-Bretanha, mas nunca foram incluídos nos registros oficiais (filhos de imigrantes não-documentados não têm direito à nacionalidade britânica).

Eles terminaram nas ruas por diferentes motivos. Porque brigaram com os pais ou porque fugiram de abusos sofridos em casa nas mãos de familiares ou "tutores", por exemplo.

Como estão no país em situação irregular, têm mais dificuldade em conseguir abrigo em instituições oficiais ou acessar serviços básicos. Alguns terminam até se prostituindo.

Não há registros oficiais sobre esses menores, mas ONGs que prestam serviços a imigrantes ou a crianças e adolescentes vêm chamando atenção para o problema - entre elas a Asylum Aid, o Coram Children's Legal Centre e o Safe'n'Sound Youth Project, de Peckham, no sul de Londres.

"Até o momento já fomos abordados por pelo menos 600 jovens nessa situação", conta Janiffer Blake, da Safe'n'Sound, para quem o problema têm crescido num ritmo "alarmante".

Segundo investigações da equipe de reportagem do programa Inside Out, da BBC, ONGs notaram a existência desses adolescentes apátridas em pelo menos nove cidades britânicas - Leeds, Coventry, Nottingham, Newcastle, Liverpool, Oxford e Cardiff, além de Londres e Birmingham.

Exemplo


Nascido em Uganda, Tony, de 17 anos, é um dos adolescentes sem-teto e sem documentos que procurou a Safe'n'Sound nos últimos meses.


Expulso de casa pelo pai aos 15 anos, desde então ele tem dormido nos ônibus da capital britânica (por considerá-los "mais seguros" que as ruas).


"Todo dia é uma luta. Tenho fome e preciso de dinheiro, mas se roubar acabo indo para a prisão. Eu não quero isso", disse o adolescente à reportagem da BBC.


Depois de dois anos vivendo em condições precárias e lutando para conseguir comida e abrigo, a saúde de Tony está se deteriorando. "Este ano, quando o frio chegou eu fiquei mal - tive muita tosse e resfriado. Também emagreci muito", conta o adolescente.


Recentemente, Tony conseguiu o direito de residir no Reino Unido com o apoio da Safe'n'Sound, o que lhe permite ao menos procurar trabalho oficialmente.


Mas muitos outros adolescentes continuam sem ter documentos nem para comprovar sua identidade para autoridades do país de origem de seus pais ou para funcionários da agência britânica de imigração. Por isso, mesmo que queiram, também não podem sair do Reino Unido.
Exploração sexual


Outro caso que ilustra as dificuldades enfrentadas por essas crianças e adolescentes sem-teto e sem documentos nas cidades britânicas é o de uma menina líbia de 17 anos entrevistada pela BBC.


Ela chegou ao país ilegalmente em 2009 depois que sua mãe, preocupada com a violência na Líbia, pagou um amigo da família para cuidar da filha no Reino Unido.


Após alguns meses, a adolescente foi abandonada pelo seu "tutor" e terminou morando nas ruas britânicas e se prostituindo.


"Às vezes sinto vontade de me matar", ela contou. "Tenho de fazer coisas que me fazem mal e me envergonham por alguns trocados. Só assim posso comer ou consigo algum lugar para dormir por uma noite."


Segundo estimativas do Centro de Estudos sobre Migração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford há 120 mil crianças vivendo na Grã-Bretanha sem documentos. Em Londres, cerca de 10% das crianças estariam em situação irregular.


Parte dessas crianças têm documentos de seus países de origem (em geral o caso dos brasileiros). Mas também há muitas que não estão registradas em nenhuma parte.


"Independentemente do status imigratório dessas crianças e adolescentes, se elas estão na Grã-Bretanha, as autoridades locais têm o dever legal de lhes proporcionar apoio e abrigo. E isso não está acontecendo em muitos casos", afirma Kamena Dorling, do Coram Children's Legal Centre.
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