DESABAFO DE UMA MÃE ITUMBIARENSE

Gugu Nader: Uma mãe relatando seu desespero e sua indignação pela falta de planejamento da área da saúde municipal de Itumbiara. Ao desespero teve que levar seu filho as pressas para a cidade de Uberlândia, onde foi atendida rapidamente e com eficiência pela rede pública municipal de saúde daquela cidade!!! Ficou a certeza, se planejar a saúde tem jeito sim!!!

Abiaxo o depoimento da mãe Kelly Barbosa:


Venho por meio deste texto, expressar a minha indignação, a minha decepção, o meu descontentamento e o meu desespero de mãe, na busca por atendimento médico para um (a) filho (a) e que NADA CONSEGUE.
Reza a Lei Nº 8.069, de 13 de Julho de 1990:
Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.
Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.
Lindo este texto, não é?!? Pois só funciona no papel, na “vida real”, nada disso existe.
No último sábado, 06 de abril de 2013, por volta das 20hs minha filhota mais nova sofreu um pequeno acidente em casa, teve um corte no queixo e o mesmo necessitava de uma sutura. Começava aí a nossa peregrinação pelos hospitais da cidade “mais bela” de Goiás, Itumbiara. Buscamos o primeiro atendimento no Hospital Santa Maria, sendo informados de que não havia ali, nenhum plantonista. Segundo atendimento no Hospital São Marcos, surpreendam-se, o médico plantonista era um clínico geral e não podia atender por se tratar de uma criança, que formação é essa que nem os olhos na criança ele pôde colocar por ser clínico geral? Ah, não era atendimento pelo SUS não, era particular! Terceiro atendimento, 21hs, Hospital Municipal Modesto de Carvalho, o hospital “amigo da criança”; ao chegarmos uma criança com meningite estava sendo removida para outra cidade, o caso era grave, inspirava cuidados especiais, fomos informados de que demoraria pois o pronto socorro precisaria passar pelo processo de desinfecção. O ideal seria a criança estar em um isolamento, de modo que o atendimento não parasse em função de uma desinfecção, que é um procedimento demorado e precisa ser bem feito. Aguardamos ali por 04 horas, médicos literalmente desfilavam pelos corredores ignorando a presença daquelas pessoas na recepção aguardando atendimento, parecíamos estar invisíveis ali sentados. As enfermeiras, piada, sentadinhas, quando não bebendo coca-cola e jogando conversa fora. Durante esse tempo em que permanecemos ali esperando, outras quatro crianças passaram pelo local e foram mandadas de volta pra casa sem atendimento, pois não tinha PEDIATRA. E se era grave, o que aconteceu com elas? Meia noite começaram a chamar, mais nada de atenderem minha filha, fomos em busca de informação e a ficha dela havia sumido, mesmo assim mudamos o lugar de espera, ao invés de esperar sentados na recepção, passamos a esperar sentados no meio do pronto socorro. Mais quinze minutos se passaram e eis que chega um paciente em estado grave, para nossa indignação, fomos mandados de volta para a recepção, pois não havia como nos atender até que o paciente fosse estabilizado. Para não passar a noite inteira sentados na recepção, aguardando um atendimento que não aconteceria, fomos para Uberlândia-MG, na UAI do Bairro Roosevelt, onde fomos atendidos em menos de 10 minutos. O médico e toda a equipe não acreditaram no que estavam presenciando, uma família andar 200km para que a filha pudesse receber três pontos no corte. Palavras do médico plantonista da UAI: “Mãe, a senhora achou mais fácil ser atendida aqui do que na cidade da senhora? Se fosse alguém contando, não acreditaríamos, acredito porque estou diante da situação e o povo ainda reclama daqui.” 
Itumbiara, a cidade da Beira Rio, lindo cenário, Rio Paranaíba, visão privilegiada... Será que os mais de 94 mil habitantes desta cidade, não precisam de atendimento médico? Será que aquele textinho lindo supracitado, não vale nada? Não, não vale, pois a preocupação é com o Itumbiara Esporte Clube, o seu rebaixamento, sapo enterrado no estágio, coisas inúteis e que infelizmente são prioridades para os administradores municipais, secretários municipais de saúde e MÉDICOS.
Os cursos de medicina precisam rever os profissionais que estão formando, pois o juramento é pela vida, e o que na verdade eles estão fazendo, a quem eles estão atendendo? Uma cidade como essa, um hospital como o Municipal e no pronto socorro somente um plantonista atendendo, onde estavam aqueles que desfilavam pra lá e pra cá na recepção, por que não assumiram os atendimentos, para que o outro pudesse estabilizar o paciente? Gente, e aquelas enfermeiras, que profissionais são aquelas, que ignoram os pacientes, somem fichas, são mal educadas, que me desculpem as exceções, mais naquele sábado não havia naquele hospital uma que talvez pudesse sentir a dor de uma mãe em busca de atendimento para seu filho. Dói muito ver a banalização da vida, o desprezo de quem está ali para atender, socorrer, salvar. A Medicina, a Enfermagem são cursos lindos, maravilhosos, cuidar do outro, trazê-lo ao mundo, devolver a vida, aliviar a dor, não tem preço que pague quando no fim do plantão você sabe que fez o melhor e que mais um dia, a missão foi cumprida com êxito. Será que se fosse algum irmão, filho, marido, mãe, avô ou quem quer que seja da família de uma daquelas pessoas que estavam de plantão naquela noite, elas também teriam ido buscar atendimento em outra cidade? Claro que não! 
Itumbiara, vamos acordar desse coma profundo, vamos lutar pelo que temos direito, lutar pela vida, por nossos filhos, por atendimento médico, por atenção, vamos lutar para que as nossas necessidades básicas sejam atendidas. É inadmissível, com uma criança nos braços, depois de quatro horas e alguns minutos aguardando atendimento, você saia de dentro do hospital sem que ninguém a olhe, é inadmissível que em uma noite, somente um médico atenda em um hospital que ao meu ver é de médio pra grande porte. Durante as eleições é tudo tão bonito, tantas promessas, tantas mudanças, mais na hora da verdade, onde está o prefeito e vice prefeito? E o secretário municipal de saúde? Estão em casa, assistindo TV, passeando, se divertindo, pois a família está bem. Não tem ninguém peregrinando de hospital em hospital em busca de atendimento.
Enquanto todos se preocupam com o péssimo futebol do Itumbiara, a saúde pública afunda, enquanto todos os olhares estão voltados para o JK, crianças estão morrendo sem atendimento médico digno, até quando vamos continuar sendo omissos, fingindo que está tudo bem, que esta cidade é o melhor lugar do mundo pra se viver? Até quando vamos continuar sendo invisíveis para esses maus profissionais da saúde, que têm o dever de salvar as vidas e que infelizmente não cumprem o juramento?
Me perdoem pelo desabafo, mais precisava colocar aqui o meu sentimento, o meu estarrecimento diante de tal situação, precisava compartilhar com vocês a barbárie em que estamos vivendo, precisava unir forças para lutar por atendimento, lutar por uma qualidade de vida satisfatória, lutar para que um dia possamos realmente dizer que aqui vale muito a pena viver.

Kelly Barbosa dos Santos
Itumbiara-GO, 08 de abril de 2013.
Share on Google Plus

About

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 comentários:

Postar um comentário